Ética e Moral: O Brasil de hoje e de amanhã

Ética e Moral: O Brasil de hoje e de amanhã

Tenho acompanhado os inúmeros escândalos impetrados pelo nosso governo, e aqui cabe um parênteses para se afirmar que não somente o poder executivo tem sido ator deste drama absolutamente antiético e amoral, mas também integrantes do nosso legislativo e até mesmo do poder judiciário, além de outros indivíduos com grande poder econômico como os executivos da Odebrecht e JBS e outros de menor notoriedade política, como funcionários “comuns” de empresas públicas e privadas.

O Brasil mergulhou em uma crise de corrupção moral, falta de honestidade e integridade. Somos os demais brasileiros todos inocentes? Sabemos que não. Temos consciência da medida de nossa parcela de culpa e não é isso que pretendo discutir aqui, ao contrário, pretendo sim falar sobre uma esperança ética.

Mas o que exatamente seria isso?

Sou business coach, consultora e professora de Ética, Compliance e Integridade em cursos de pós-graduação e venho, paulatinamente percebendo nos comentários de meus clientes e alunos que após a publicação dos últimos escândalos no país reavivou-se o sentimento de patriotismo e mais que isso, valores pessoais e coletivos em nossa nação. A verdade é que ninguém mais aguenta tanta corrupção, fala-se muito em querer fazer o que é certo, consertar o errado e passar a viver com valores arraigados nos pensamentos e atitudes corretos.

Aristóteles afirmava que “A virtude moral é uma consequência do habito. Nós nos tornamos o que fazemos repetidamente. Ou seja: nós nos tornamos justos ao praticarmos atos justos, controlados, ao praticarmos atos de autocontrole, corajosos ao praticarmos atos de bravura”.

Neste contexto não há como discordar de Aristóteles (nem ousaria) que a moral está diretamente ligada aos costumes (o que aprendemos e realizamos diariamente), enquanto que a ética se define mais sobre as questões do que é certo e do que é errado. Ora, se a moral está ligada com nossa realidade diária e a ética com o que é certo e errado, penso que na medida em que procuramos exercer nossa moral através dos valores que desejamos que terceiros exerçam conosco como respeito, honestidade, justiça, integridade, civilidade, tolerância, compreensão, gentileza, paciência, entre tantos outros valores que nos são tão caros, automaticamente estaremos sendo éticos, posto que tais valores espelham a realidade do que é certo.

Se bem observarmos, nossos vícios vêm já de bem pequenos, ainda muito crianças temos o intrínseco desejo de sermos os melhores, os mais amados, mais apreciados, aqueles que possuem tudo, inclusive o que é do outro e, em muitos casos o desejo é tão incontrolável que nos apropriamos daquilo que não nos pertence. É este o momento da construção dos valores, seja dentro de casa ou na escola.

Meu artigo hoje, como já mencionei anteriormente é sobre uma esperança ética, uma esperança de que gerações futuras ao vivenciar diuturnamente experiências éticas (dentro de casa, na escola, com amigos, na sociedade, vendo televisão, lendo bons livros etc) possam, como afirmou Aristóteles, exercer a virtude da moral pelo hábito.

Um grande passo no Brasil já foi dado através do Projeto de Lei do Senado número 2/2012, o qual altera a redação dos artigos 32 e 36 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para inserir novas disciplinas obrigatórias nos currículos dos ensinos fundamental e médio pelo que “Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional”, acrescentando como objetivo do ensino fundamental obrigatório o exercício da cidadania e a compreensão dos valores morais e éticos em que se fundamentam a sociedade e inclui como disciplina obrigatória em todas as séries do ensino médio a “Ética Social e Política”.

Este PL foi remetido à Câmara dos Deputados em 20/11/2012, sem mais novidades no site do Senado Federal após isso, o que de fato é um grande equívoco já que, a meu ver este excelente Projeto, por sua importante influência positiva para as crianças e adolescentes da nossa sociedade, deve ser transformado em Lei o mais breve possível e já está com quase 5 anos de atraso.

Certamente essa não é a solução para todos os problemas morais e éticos no país, mas se dermos um pontapé inicial com a aprovação do PL acima citado, além das ações já em curso pelo Ministério Público Federal e Poder Judiciário no que diz respeito a “limpeza” nacional, além da implantação e valorização dos programas de Integridade e Compliance nas empresas brasileiras e a mudança de comportamento de cada um de nós.

Existe uma esperança ética para o Brasil de hoje projetado ainda para o país que sonhamos para nossos filhos.


Dra. Somone Rocha.
Advogada, Consultora e Compliance Coach, doutoranda em ciências jurídicas pela UCA – Universidade Católica de Buenos Aires com tese orientada na área de Compliance, Ética e Integridade, pós-graduada em direito processual civil pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e em direito “lato sensu” pela Escola da Magistratura do Estado do Paraná e Fundação do Ministério Público do Paraná. Professora de pós-graduação nas áreas jurídica e administrativa com ênfase em governança corporativa, gestão de pessoas e processos.


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